Enterobius vermicularis e apendicite: coincidência ou fator causal?
A apendicite aguda é uma das principais causas de cirurgia de emergência, sendo classicamente associada a obstrução luminal e infecção bacteriana. Entretanto, apesar de menos frequentes, infecções parasitárias também têm sido implicadas nesse processo. Nesse contexto, destaca-se o Enterobius vermicularis, um helminto amplamente distribuído, cuja presença no apêndice levanta dúvidas sobre seu real papel na gênese da inflamação.
Embora a relação entre esse parasita e a apendicite seja descrita há séculos, ainda existe controvérsia quanto ao seu impacto clínico. Assim, compreender essa associação é essencial tanto para o diagnóstico diferencial quanto para a conduta terapêutica adequada.
Epidemiologia e prevalência do Enterobius vermicularis na apendicite
A presença de Enterobius vermicularis em apêndices removidos cirurgicamente varia consideravelmente entre os estudos e regiões. Em uma análise global, observou-se que cerca de 3005 casos positivos foram identificados em mais de 100 mil apendicites, evidenciando uma prevalência relativamente baixa, porém relevante.
Além disso, há variações geográficas importantes, com taxas menores nas Américas e maiores em regiões com menor desenvolvimento socioeconômico. Esse padrão sugere forte influência de fatores como saneamento básico, condições de vida e acesso à saúde pública.

Aspectos fisiopatológicos do Enterobius vermicularis na apendicite
O Enterobius vermicularis habita preferencialmente o ceco, o apêndice e o íleo terminal, podendo permanecer no lúmen apendicular sem necessariamente causar inflamação. No entanto, sua presença pode desencadear sintomas por mecanismos indiretos, como obstrução luminal ou hiperplasia linfoide.
Por outro lado, embora existam relatos de invasão da mucosa e inflamação associada, a maioria dos estudos demonstra que o parasita está frequentemente presente em apêndices sem alterações inflamatórias. Dessa forma, sua participação na fisiopatologia da apendicite aguda permanece inconclusiva.
Achados histopatológicos e controvérsias do Enterobius vermicularis na apendicite
Do ponto de vista histológico, os achados variam desde apêndices normais até casos com infiltração inflamatória significativa. Em muitos pacientes, observa-se apenas a presença do verme no lúmen, sem interação direta com o epitélio.
Além disso, estudos mostram maior frequência do parasita em apêndices sem inflamação do que em casos de apendicite aguda confirmada. Isso reforça a hipótese de que o E. vermicularis pode estar mais associado a uma síndrome dolorosa abdominal do que à inflamação aguda propriamente dita.
Implicações clínicas e diagnóstico do Enterobius vermicularis na apendicite
Clinicamente, a infecção por E. vermicularis pode mimetizar apendicite, causando dor abdominal em fossa ilíaca direita, o que dificulta o diagnóstico diferencial. Exames laboratoriais podem ser inespecíficos, e muitas vezes o diagnóstico definitivo ocorre apenas após análise histopatológica do apêndice.
Além disso, métodos como exame parasitológico de fezes e teste da fita adesiva podem auxiliar na detecção do parasita, especialmente em casos duvidosos. Ainda assim, a decisão cirúrgica frequentemente ocorre antes da confirmação etiológica.
Conclusão
A associação entre Enterobius vermicularis e apendicite permanece um tema controverso na literatura. Embora o parasita seja frequentemente encontrado no apêndice, sua relação com a inflamação aguda não está claramente estabelecida, sendo muitas vezes um achado incidental.
Diante disso, é fundamental considerar a infecção parasitária como diagnóstico diferencial, especialmente em contextos epidemiológicos favoráveis. Além disso, a identificação do parasita deve ser seguida de tratamento específico, uma vez que a apendicectomia resolve apenas a manifestação clínica, mas não a infecção de base.

Referências
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