Automação na Urinálise: avanços, benefícios e desafios na rotina laboratorial

O exame de urina é um dos testes laboratoriais mais antigos e mais solicitados na prática clínica. Ao longo dos anos, sua importância permaneceu consolidada por fornecer informações valiosas sobre a função renal e as condições do trato urinário de forma rápida, simples e acessível. Com o aumento da demanda nos laboratórios clínicos, a automação da urinálise tornou-se uma alternativa importante para otimizar processos e ampliar a capacidade analítica.

Nesse contexto, diferentes tecnologias foram incorporadas à rotina laboratorial, promovendo maior padronização, rastreabilidade e produtividade. Entretanto, embora os sistemas automatizados representem um grande avanço, ainda existem limitações que exigem a atuação crítica de profissionais capacitados para garantir a qualidade dos resultados.

Da análise manual à automação

Historicamente, a avaliação da urina era realizada por meio da observação visual de características como cor, aspecto e sedimento. Com o desenvolvimento da microscopia, a análise do sedimento urinário passou a desempenhar papel fundamental no diagnóstico laboratorial, consolidando-se como referência para a identificação de diversos elementos urinários.

Posteriormente, o surgimento das tiras reagentes e dos primeiros leitores automatizados permitiu maior padronização da análise química. Dessa forma, reduziu-se a influência de fatores subjetivos, como diferenças individuais na percepção das cores e variações relacionadas ao tempo de leitura das reações.

Principais tecnologias empregadas na automação da urinálise

Atualmente, os sistemas automatizados utilizam diferentes tecnologias para análise da urina. Entre elas, destacam-se os leitores de tiras reagentes baseados em fotometria por reflectância, capazes de realizar a leitura padronizada dos parâmetros químicos com maior sensibilidade e reprodutibilidade.

Além disso, métodos como a citometria de fluxo fluorescente e os sistemas de imagem digital possibilitam a identificação e a quantificação de partículas urinárias. Essas tecnologias utilizam características como tamanho, volume, dispersão de luz e reconhecimento de imagens para classificar elementos como hemácias, leucócitos, bactérias, células epiteliais, cristais e cilindros.

Benefícios da automação para os laboratórios clínicos

A automação trouxe ganhos significativos para a rotina laboratorial. Entre os principais benefícios estão a redução do tempo de processamento das amostras, a diminuição da variabilidade analítica e o aumento da produtividade, permitindo o processamento de grandes volumes de exames diariamente.

Além disso, os sistemas automatizados favorecem a integração com sistemas informatizados, possibilitando rastreabilidade, armazenamento de imagens, transmissão automática de resultados e redução de erros pós-analíticos. Como consequência, os laboratórios conseguem oferecer maior agilidade sem comprometer a segurança dos processos.

Limitações e necessidade da revisão microscópica

Apesar dos avanços tecnológicos, nenhum sistema automatizado é capaz de substituir completamente a análise microscópica realizada por profissionais treinados. Diversos estudos demonstram que ainda existem dificuldades na identificação de elementos de maior relevância clínica, especialmente cilindros patológicos, hemácias dismórficas, células tubulares renais, leveduras e determinados cristais.

Por esse motivo, a revisão microscópica continua sendo uma etapa fundamental em amostras alteradas ou que apresentem resultados discordantes. Além disso, a definição de critérios próprios de revisão por cada laboratório contribui para reduzir falsos negativos e aumentar a confiabilidade dos laudos emitidos.

Conclusão

A automação na urinálise representa um importante avanço para os laboratórios clínicos, promovendo maior padronização, produtividade e eficiência na execução dos exames. As tecnologias atualmente disponíveis permitem análises mais rápidas e consistentes.

Referências

NAKASATO, Julia Midori Endo; KUSSEN, Gislene; HAUSER, Aline Borsato. Sistemas automatizados em urinálise: aplicação na rotina laboratorial das novas tecnologias. Visão Acadêmica, Curitiba, v. 20, n. 2, p. 89-101, abr./jun. 2019.

MACHADO, M. H. T.; GONÇALVES, E. D.; LARGURA, M. A.; GONÇALVES, A.; ANDRADE, M. P.; LARGURA, A. Automação do exame de urina: comparação do Urisys 2400 com a rotina manual (microscopia do sedimento urinário). Revista Brasileira de Análises Clínicas (RBAC), v. 35, n. 4, p. 165-167, 2003.

FREITAS, Priscila Aparecida Correa. Avaliação da análise automatizada do sedimento urinário em um laboratório de hospital universitário. 2025. Tese (Doutorado em Medicina: Ciências Médicas) – Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2025.