Pseudotrombocitopenia

A trombocitopenia é um achado laboratorial que pode estar associado a diversas condições clínicas. Entretanto, nem toda contagem reduzida de plaquetas representa uma verdadeira diminuição dessas células. Em algumas situações, o resultado é consequência de um artefato laboratorial conhecido como pseudotrombocitopenia, que pode levar a interpretações equivocadas e, consequentemente, a condutas desnecessárias.

Dessa forma, reconhecer esse fenômeno é fundamental para evitar diagnósticos incorretos, exames complementares dispensáveis e até tratamentos potencialmente prejudiciais ao paciente. Por isso, compreender seus mecanismos e saber identificá-lo faz parte da rotina de um laboratório que busca resultados confiáveis.

O que é a pseudotrombocitopenia?

A pseudotrombocitopenia corresponde a uma contagem falsamente reduzida de plaquetas obtida durante a análise laboratorial. Na maioria dos casos, esse fenômeno ocorre em amostras coletadas com ácido etilenodiaminotetracético, conhecido como EDTA, anticoagulante amplamente utilizado nos tubos para hemograma.

Nessas condições, as plaquetas podem formar agregados entre si ou, menos frequentemente, aderir à superfície dos neutrófilos, caracterizando o satelitismo plaquetário. Como consequência, os analisadores hematológicos deixam de reconhecer essas plaquetas individualmente, produzindo uma contagem artificialmente baixa.

Como esse fenômeno acontece?

Embora sua fisiopatologia ainda não esteja completamente esclarecida, os estudos indicam que a pseudotrombocitopenia induzida pelo EDTA ocorre por um mecanismo imunomediado. Na presença desse anticoagulante, alterações estruturais na glicoproteína IIb/IIIa expõem epítopos que passam a ser reconhecidos por autoanticorpos, principalmente das classes IgG, IgM e IgA.

Essa ligação promove a aglutinação das plaquetas, principalmente em temperaturas inferiores a 37°C. Além disso, o processo tende a se intensificar com o tempo entre a coleta e a análise da amostra, tornando a redução da contagem ainda mais evidente conforme aumenta o intervalo até o processamento.

Impacto na rotina laboratorial e no diagnóstico

A principal consequência da pseudotrombocitopenia é a possibilidade de um diagnóstico incorreto de trombocitopenia. Esse equívoco pode levar à solicitação de exames desnecessários, investigação de doenças hematológicas, realização de procedimentos invasivos e até instituição de terapias inadequadas, incluindo transfusão de plaquetas.

Como confirmar a pseudotrombocitopenia?

Sempre que houver uma trombocitopenia isolada incompatível com o quadro clínico do paciente, a possibilidade de pseudotrombocitopenia deve ser considerada. A primeira etapa consiste na avaliação cuidadosa do esfregaço de sangue periférico, que geralmente evidencia numerosos agregados plaquetários, principalmente na região final da cauda do esfregaço.

Em seguida, recomenda-se repetir a contagem utilizando uma nova amostra coletada com outro anticoagulante, como citrato de sódio. Quando a contagem se normaliza nessa condição, o diagnóstico é confirmado. Também é importante observar os histogramas e os alertas emitidos pelo analisador hematológico, que frequentemente sugerem distribuição anormal das plaquetas ou necessidade de revisão microscópica.

Conclusão

A pseudotrombocitopenia representa um importante desafio para o laboratório clínico, pois pode simular uma trombocitopenia verdadeira mesmo na ausência de qualquer alteração clínica relacionada ao sangramento. Por esse motivo, a interpretação dos resultados não deve se limitar aos valores fornecidos pelo analisador hematológico.

Assim, a correlação entre os dados laboratoriais, os alertas do equipamento, a avaliação do esfregaço sanguíneo e, quando necessário, a repetição da coleta com outro anticoagulante permite identificar corretamente esse artefato. 

Referências

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