Alterações laboratoriais na sepse

A sepse é uma síndrome complexa decorrente de uma resposta sistêmica à infecção, capaz de provocar alterações metabólicas, hemodinâmicas e disfunção de diferentes órgãos. À medida que o quadro progride, podem surgir condições mais graves, como hipoperfusão, choque séptico e disfunção múltipla de órgãos, aumentando significativamente o risco de mortalidade.

Nesse contexto, os exames laboratoriais possuem papel importante tanto na investigação do agente infeccioso quanto na identificação das repercussões sistêmicas da sepse. Entretanto, como muitas alterações apresentam sensibilidade e especificidade limitadas quando avaliadas isoladamente, a interpretação integrada dos resultados é fundamental para acompanhar a evolução do paciente.

Alterações no leucograma na sepse

As alterações leucocitárias estão entre os principais achados laboratoriais relacionados à resposta inflamatória. A sepse pode cursar com leucocitose, caracterizada pelo aumento da contagem de leucócitos, ou leucopenia. Além disso, mesmo diante de uma contagem total dentro dos valores esperados, pode ocorrer aumento das formas imaturas circulantes.

Em um estudo realizado com pacientes sépticos internados em UTI, a leucocitose foi a alteração laboratorial mais prevalente, encontrada em 67,4% dos casos, enquanto a leucopenia ocorreu em 4,3%. Além disso, no contexto da sepse neonatal, maiores quantidades de neutrófilos totais e imaturos foram observadas nos casos de sepse comprovada, reforçando a importância da avaliação hematológica integrada.

Plaquetopenia e alterações da coagulação  na sepse

A coagulação também pode ser comprometida durante a sepse. Entre as alterações descritas estão a trombocitopenia, com redução da contagem de plaquetas, e alterações do coagulograma, como elevação do INR e prolongamento do tempo de tromboplastina parcial. Portanto, esses parâmetros podem contribuir para a identificação do comprometimento sistêmico.

Em pacientes sépticos avaliados em UTI, a plaquetopenia esteve presente em 32,6% dos casos. Além disso, o estudo identificou que pacientes classificados com disfunção da coagulação pelo escore SOFA apresentaram elevada mortalidade, evidenciando a relevância do acompanhamento das alterações hemostáticas durante a evolução clínica.

Lactato e acidose metabólica na sepse

A hipoperfusão tecidual provocada pela evolução da sepse pode repercutir diretamente no equilíbrio metabólico. Nesse cenário, a acidose metabólica constitui um achado importante, pois está relacionada ao baixo débito cardíaco e à má perfusão dos tecidos. Em um dos estudos analisados, 45,6% dos pacientes apresentaram acidose metabólica.

Além disso, o lactato sérico pode auxiliar na avaliação da gravidade do quadro. Sua elevação está associada à acidose metabólica, à presença de disfunção orgânica e ao choque em pacientes sépticos. Consequentemente, a hiperlactatemia pode fornecer informações relevantes sobre o comprometimento da perfusão tecidual e o prognóstico do paciente.

Marcadores inflamatórios na sepse

A resposta inflamatória sistêmica também pode ser acompanhada por meio de marcadores laboratoriais. Entre eles, destacam-se a proteína C reativa e a procalcitonina, além de mediadores como IL-1, IL-6, IL-8, IL-10 e TNF. Entretanto, muitos desses indicadores apresentam limitações de sensibilidade e especificidade e, por isso, não devem ser interpretados isoladamente.

A proteína C reativa pode contribuir para essa avaliação. Em um estudo sobre sepse neonatal tardia, seus valores foram significativamente maiores nos recém-nascidos com sepse comprovada. Já a procalcitonina é descrita como um marcador com potencial para auxiliar no diagnóstico e no prognóstico, embora o texto analisado ressalte que não deve ser considerada um marcador definitivo de sepse.

Conclusão

As alterações laboratoriais na sepse abrangem diferentes setores do laboratório e refletem tanto a resposta inflamatória quanto as repercussões metabólicas e orgânicas da doença. Leucocitose, leucopenia, aumento de formas imaturas, plaquetopenia, alterações da coagulação, acidose metabólica, hiperlactatemia e alterações de marcadores inflamatórios estão entre os achados que podem contribuir para a avaliação do paciente.

Referências

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