O papel do EAS na cetoacidose diabética
A cetoacidose diabética (CAD) é uma complicação metabólica aguda e potencialmente grave do diabetes mellitus, caracterizada principalmente por hiperglicemia, cetose e acidose metabólica. Embora seja mais frequente no diabetes mellitus tipo 1, também pode ocorrer em pacientes com diabetes tipo 2, sobretudo diante de condições de estresse metabólico ou deficiência relativa de insulina.
Nesse contexto, os exames laboratoriais são fundamentais para o reconhecimento e a avaliação do quadro. Entre eles, o exame de Elementos Anormais e Sedimento (EAS) permite identificar alterações urinárias decorrentes das mudanças metabólicas presentes na CAD, especialmente glicosúria e cetonúria.

O que acontece na cetoacidose diabética?
A CAD resulta da deficiência absoluta ou relativa de insulina associada ao aumento da ação de hormônios contrarreguladores. Como consequência, ocorre redução da utilização periférica da glicose e aumento de sua produção, favorecendo a hiperglicemia. Ao mesmo tempo, a deficiência de insulina estimula a lipólise e aumenta a disponibilidade de ácidos graxos livres.
Esses ácidos graxos são metabolizados no fígado, levando à formação de corpos cetônicos, principalmente acetoacetato e beta-hidroxibutirato. Consequentemente, o acúmulo dessas substâncias contribui para o desenvolvimento da acidose metabólica característica da CAD.
Por que a glicose aparece na urina?
Com a elevação persistente da glicemia, a capacidade de reabsorção renal da glicose é ultrapassada. Dessa forma, parte dessa glicose passa a ser eliminada na urina, originando a glicosúria. Essa alteração está diretamente relacionada às manifestações metabólicas observadas durante a cetoacidose diabética.
Além disso, a glicosúria favorece a diurese osmótica, aumentando a perda urinária de água e eletrólitos. Como resultado, o paciente pode desenvolver desidratação e alterações hidroeletrolíticas importantes, que contribuem para a progressão do quadro metabólico.
Cetonúria e sua importância no EAS
Outro achado importante no EAS é a cetonúria. Durante a CAD, a intensa produção de corpos cetônicos aumenta sua concentração no sangue e favorece sua eliminação pela urina. Portanto, a identificação de cetonas no exame urinário pode contribuir para a investigação laboratorial de pacientes com suspeita de cetoacidose diabética.
Entretanto, a cetonúria não deve ser interpretada isoladamente. A dosagem sérica de beta-hidroxibutirato fornece uma avaliação mais precisa da cetose, enquanto a cetonúria pode permanecer positiva mesmo após a melhora da acidose. Por isso, sua persistência não necessariamente indica que a CAD ainda não foi resolvida.
Outros achados urinários e interpretação do EAS
Além da glicosúria e da cetonúria, o EAS pode apresentar aumento da densidade urinária e albuminúria em pacientes com CAD. Dessa maneira, o exame fornece informações adicionais que podem complementar a avaliação laboratorial do paciente e ajudar na compreensão das repercussões metabólicas e urinárias do quadro.
Contudo, o diagnóstico da CAD depende da integração dos achados urinários com outros parâmetros clínicos e laboratoriais. A investigação inclui glicemia plasmática, eletrólitos, ureia, creatinina, corpos cetônicos e gasometria, sendo a avaliação do pH e do bicarbonato particularmente importante para caracterizar a acidose metabólica.
Conclusão
O EAS integra a avaliação laboratorial da cetoacidose diabética principalmente pela identificação de glicosúria e cetonúria, além de alterações como aumento da densidade urinária e albuminúria. Esses achados refletem importantes alterações metabólicas da CAD e, consequentemente, podem auxiliar na investigação inicial do quadro.
Referências
DIONÍSIO, Bárbara Conceição Pontes; OLIVEIRA, Raquel da Silva; NASCIMENTO, Sandra Cione do; CORDEIRO, Carlos Daniel da Silva; VILA NOVA, Isabella Coimbra. Cetoacidose diabética: diagnóstico, tratamento, prevenção e a atuação clínica do farmacêutico. Revista Universitária Brasileira, v. 4, n. 2, p. 90-99, 2026.
FERREIRA, I. R.; MENDES, L. C. Cetoacidose como complicação da diabetes mellitus em adultos revertida por insulinoterapia. In: Biomedicina: curso destaque. [S. l.]: Editora Pasteur, [s. d.].
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