Howell-Jolly: marcador hematológico e indicador de função esplênica
Os corpúsculos de Howell-Jolly são inclusões eritrocitárias que têm ganhado destaque tanto na hematologia quanto na prática clínica por sua relevância diagnóstica e prognóstica. Essas estruturas refletem alterações na maturação eritrocitária e, principalmente, falhas na função filtrativa do baço, sendo classicamente associadas ao hipoesplenismo ou asplenia.
Além disso, sua presença tem sido relacionada a diversas condições clínicas, como anemia falciforme e infecção pelo HIV, nas quais alterações hematológicas e imunológicas desempenham papel central.

Características morfológicas e formação dos corpúsculos de Howell-Jolly
Os corpúsculos de Howell-Jolly correspondem a restos nucleares presentes no citoplasma das hemácias, resultantes de falhas no processo normal de maturação eritrocitária. Morfologicamente, apresentam-se como inclusões pequenas, arredondadas, basofílicas e bem delimitadas em esfregaços corados por técnicas como May-Grünwald-Giemsa.
Em condições fisiológicas, essas inclusões são rapidamente removidas pelo baço. Portanto, sua presença na circulação periférica indica comprometimento da depuração esplênica ou alterações na eritropoiese, podendo também refletir danos citogenéticos, como quebras cromossômicas ou perda de material nuclear durante a divisão celular.

(Corpúsculos de Howell-Jolly)
Relação dos corpúsculos de Howell-Jolly com a função esplênica
O baço exerce papel fundamental na remoção de eritrócitos anormais, incluindo aqueles contendo Howell-Jolly bodies. Assim, a detecção dessas estruturas no sangue periférico constitui um marcador indireto de disfunção esplênica, especialmente em pacientes com asplenia ou hipoesplenismo.
Historicamente, a contagem desses corpúsculos foi utilizada como método de triagem e até como medida quantitativa da função esplênica. Embora estudos tenham questionado sua sensibilidade para graus leves de disfunção, evidências demonstram forte correlação com métodos mais sensíveis, como a contagem de hemácias com depressões, sendo útil principalmente na identificação de comprometimento clínico relevante.
Importância na anemia falciforme
Na doença falciforme, a disfunção esplênica ocorre precocemente devido a infartos repetidos e perda progressiva do tecido esplênico. Nesse cenário, observa-se aumento significativo da frequência de Howell-Jolly bodies, refletindo a incapacidade do baço em remover essas inclusões da circulação.
Métodos modernos, como a citometria de fluxo, permitem quantificação precisa dessas células, diferenciando populações eritrocitárias jovens e maduras. Essa abordagem possibilita avaliar simultaneamente a função esplênica e possíveis danos citogenéticos, além de monitorar fatores como idade, uso de hidroxiureia e histórico de esplenectomia.
Aplicações clínicas no HIV
Em pacientes com infecção pelo HIV, os Howell-Jolly bodies têm sido reconhecidos como marcadores relevantes de alterações hematológicas e disfunção esplênica. Sua presença reflete a interação entre imunossupressão, inflamação crônica e alterações na eritropoiese.
Estudos demonstram associação entre maior quantidade dessas inclusões e estágios mais avançados da doença, com correlação com carga viral elevada, redução de linfócitos CD4+ e maior risco de infecções oportunistas.
Conclusão
Os corpúsculos de Howell-Jolly representam um importante marcador hematológico, com aplicações que abrangem desde a avaliação da função esplênica até o monitoramento de doenças complexas como anemia falciforme e HIV. Sua presença no sangue periférico reflete alterações significativas na eritropoiese e na depuração esplênica, com impacto direto no prognóstico e na condução clínica.

Referências
OBEAGU, Emmanuel Ifeanyi. The impact of Howell-Jolly bodies on quality of life in HIV patients: a review. Elite Journal of Public Health, v. 2, n. 5, p. 32-42, 2024. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/380360454. Acesso em: 31 mar. 2026.
CORAZZA, G. R. et al. Howell-Jolly body count as a measure of splenic function: a reappraisal. Laboratorio Clinico Hematologia, v. 12, p. 269-275, 1990.
HARROD, Virginia L. et al. Quantitative analysis of Howell-Jolly bodies in children with sickle cell disease. Experimental Hematology, v. 35, p. 179-183, 2007.



