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HEMÁCIAS NA URINA

A presença de hemácias na urina é um dos achados microscópicos mais relevantes na urinálise. Elas podem surgir em qualquer ponto do trato urinário, e em mulheres podem aparecer por simples contaminação menstrual. Por isso, interpretar hemácias no sedimento exige técnica, atenção e domínio da morfologia urinária.

Quando a amostra é fresca, as hemácias mantêm seu aspecto típico: discos bicôncavos, anucleados, com 6 a 8 μm de diâmetro e coloração pálida. Vistas lateralmente, exibem o formato clássico de ampulheta.

Morfologia das hemácias e como o ambiente urinário altera sua forma

A forma das hemácias muda conforme as características físico-químicas da urina. Em urinas hipotônicas, elas absorvem água e podem inchar até sofrer lise, deixando apenas as chamadas células “fantasmas”, membranas incolores vazias. Urinas alcalinas também aceleram a lise.

Quando o ambiente é hipertônico, ocorre o efeito oposto: as hemácias perdem o formato bicôncavo, contraem-se e adquirem bordas irregulares, processo conhecido como crenação. Sendo assim, essas variações morfológicas são essenciais para diferenciar condições clínicas e evitar interpretações equivocadas.

Como identificar as hemácias na urina

No exame microscópico da urina, hemácias podem ser confundidas com outras estruturas. Hemácias maiores lembram leucócitos, apesar de estes serem maiores e nucleados. Além disso, bolhas de ar, gotículas de óleo e células de levedura podem imitar o aspecto refringente das hemácias.

Nesse cenário, ajustes simples no microscópio são decisivos. Alterações na iluminação ou no contraste revelam a borda refringente das hemácias, que frequentemente se destacam como anéis escuros no campo. No entanto, esse padrão desaparece quando a célula está intensamente deformada.

Tipos de hemácias observadas na urinálise

As hemácias no sedimento urinário podem apresentar diferentes morfologias conforme o ambiente da amostra.

  • Em condições normais, surgem como discos bicôncavos, pálidos, anucleados e uniformes.
  • Quando expostas a uma urina hipotônica, tornam-se incolores, mantendo a membrana íntegra e muitas vezes sem hemoglobina.
  • Já em urinas hipertônicas, aparecem reduzidas, espiculadas e crenadas devido à perda de água.
  • As formas dismórficas, por sua vez, apresentam contornos irregulares, fragmentações ou protrusões, sendo um achado importante que sugere dano glomerular e merece investigação cuidadosa.

Significado clínico da hematúria

Em condições normais, até 1 a 2 hemácias por campo de grande aumento podem aparecer sem relevância clínica. Valores acima disso caracterizam hematúria. Entretanto, a hematúria microscópica pode não revelar hemácias intactas, já que muitas se encontram lisadas.

Aumento de hemácias intactas pode estar relacionadas à infecção urinária, trauma renal, cálculos, neoplasias ou contaminação menstrual. Já hemácias dismórficas merecem atenção especial, pois sugerem lesão glomerular e têm alto valor diagnóstico em nefropatias.

A correlação com o exame químico também é essencial, isso porque, amostras com grande quantidade de sangue tendem a apresentar resultado positivo para proteínas devido à presença de hemoglobina.

Diferenciação entre hemácias e leucócitos na urina

A técnica mais eficiente para diferenciar hemácias de leucócitos é a adição de ácido acético a 2%. As hemácias sofrem lise imediata, enquanto os leucócitos permanecem íntegros e com núcleo bem evidenciado. Essa etapa, porém, deve ser realizada após a contagem inicial, já que estruturas como cilindros hemáticos também se dissolvem com o ácido.

Estruturas que imitam hemácias: como evitar erros no laudo

Leveduras são a causa mais comum de confusão. Elas são ovais, podem apresentar brotamento e exibem dupla refringência, criando um visual semelhante ao “anel” das hemácias. Entretanto, diferentemente destas, as leveduras não se lisam com ácido acético.

Além disso, gotículas de óleo e bolhas de ar também são altamente refringentes e podem enganar examinadores inexperientes. A chave está em avaliar contorno, tamanho, presença de núcleo e comportamento após reagentes.

Dicas finais para evitar erros ao analisar hemácias no sedimento

  • Compare diferentes células presentes no campo sempre que possível, ajustando iluminação e contraste para realçar bordas refringentes e evitar confusões.
  • Quando houver dúvida entre hemácias e leucócitos, o ácido acético é um excelente aliado para confirmar a identificação.
  • A interpretação nunca deve ser feita isoladamente: avalie também a densidade urinária, o pH, a cor e todos os resultados químicos que acompanham a amostra.
  • Mantenha sempre em mente a possibilidade de contaminação, especialmente em amostras de mulheres, para garantir uma análise precisa e confiável.

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Referências:

MUNDT, Lillian A.; SHANAHAN, Kristy. Exame de urina e de fluidos corporais de Graff. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012.

STRASINGER, Susan King; DI LORENZO, Marjorie Schaub. Urinalysis and Body Fluids. 7th ed. Philadelphia: F. A. Davis Company, 2021.